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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Panorama da filosofia francesa contemporânea (parte II) / Antologia sonora do pensamento francês pelos filósofos do século XX (CD's 3 e 4)

Continuamos, com tradução nossa, a conferência "Panorama de la philosophie française contemporaine" (leia a parte I), de Alain Badiou, proferida na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires. Essa conferência serve de prefácio à coleção "Anthologie Sonore de la pensée française par les philosophes du XXème siècle". Apresentamos agora os CD's 3 e 4 (baixe os CD's 1 e 2).


Panorama da filosofia francesa contemporânea
Alain Badiou


A primeira operação é uma operação alemã, ou uma operação francesa sobre os filósofos alemães. De fato, toda a filosofia francesa da segunda metade do século XX é na realidade também uma discussão da herança alemã. Tivemos momentos muito importantes nessa discussão, como, por exemplo, o seminário de Kojève sobre Hegel nos anos trinta, que foi de considerável importância, sendo seguido por Lacan e que causou forte impressão sobre Lévi-Strauss. Em seguida, há a descoberta da fenomenologia pelos jovens filósofos franceses dos anos trinta e quarenta, através da leitura de Husserl e Heidegger. Sartre, por exemplo, modificou completamente sua perspectiva quando, residindo em Berlin, leu, diretamente no texto, as obras de Husserl e de Heidegger; Derrida é, primeiramente e acima de tudo, um intérprete absolutamente original do pensamento alemão. E, além disso, há Nietzsche, filósofo fundamental tanto para Foucault quanto para Deleuze. Então, nós podemos dizer que os franceses foram procurar alguma coisa na Alemanha, em Hegel, em Nietzsche, em Husserl e em Heidegger.

O que a filosofia francesa foi procurar na Alemanha? Nós podemos resumi-lo em uma frase: uma nova relação entre o conceito e a existência, que tomou diversos nomes: desconstrução, existencialismo, hermenêutica. Mas, através de todos esses nomes, vocês têm uma investigação comum, a tarefa de modificar, deslocar, a relação entre o conceito e a existência. Como a questão da filosofia francesa, depois do começo do século, era a relação entre vida e conceito, essa transformação existencial do pensamento, essa atribuição do pensamento ao seu solo vital, interessava vivamente a filosofia francesa. É o que eu chamo, para a filosofia francesa, de operação alemã: encontrar na filosofia alemã novos modos de tratar a relação entre conceito e existência. É uma operação porque essa filosofia alemã se tornou, em sua tradução francesa, o campo de batalha da filosofia francesa, algo inteiramente novo. Tivemos uma operação totalmente particular que foi, se assim posso dizer, a apropriação francesa da filosofia alemã. Essa é a primeira operação.

A segunda operação, não menos importante, diz respeito às ciências. Os filósofos franceses da segunda metade do século quiseram arrancar a ciência do estrito domínio da filosofia do conhecimento; mostrando que ela era mais vasta e mais profunda que a simples questão do conhecimento, posto que atividade produtiva, criação e não apenas reflexão ou cognição. Quiseram encontrar na ciência modelos de invenção, de transformação, para, finalmente, inscrever a ciência não na revelação dos fenômenos, na sua organização, mas como exemplo de atividade do pensamento e atividade criadora comparável à atividade artística. A operação a propósito da ciência consistiu em deslocar a ciência do campo do conhecimento ao campo da criação e, finalmente, em aproximá-la progressivamente da atividade artística. Esse processo encontra sua realização em Deleuze, que compara de maneira muito sutil e íntima as criações científicas e artísticas, porém muito antes já tinha se tornado uma das operações constitutivas da filosofia francesa.

A terceira operação é uma operação política. Todos os filósofos desse período quiseram criar um profundo engajamento da filosofia na questão política: Sarte, o Merleau-Ponty do pós-guerra, Foucault, Althusser, Deleuze, todos eles foram ativistas políticos. Através dessa atividade política eles buscaram uma nova relação entre o conceito e a ação. Da mesma forma como buscaram nos alemães uma nova relação entre o conceito e a existência, eles buscaram na política uma nova relação entre o conceito e a ação, particularmente a ação coletiva. Esse desejo fundamental de engajamento da filosofia nas situações políticas modificou a relação entre o conceito e ação.

Enfim, a quarta operação, eu chamarei uma operação moderna: modernizar a filosofia. Antes mesmo que falássemos todos os dias em modernizar a ação governamental (hoje é preciso tudo modernizar, o que muitas vezes quer dizer tudo destruir), houve entre os filósofos franceses um profundo desejo de modernidade. Isso queria dizer seguir de perto as transformações artísticas, culturais, sociais e as transformações nos costumes. Houve um interesse filosófico muito forte pela pintura não-figurativa, pela nova música (nouvelle musique), pelo teatro, pelo romance policial, pelo jazz, pelo cinema. Houve uma vontade de aproximar a filosofia do que havia de mais denso no mundo moderno. Houve também um interesse muito forte pela sexualidade, pelos novos estilos de vida. E, através de tudo isso, a filosofia buscava uma nova relação entre o conceito e o movimento das formas: as formas artísticas, sociais e da vida. Essa modernização era a investigação de uma nova maneira de aproximar a filosofia da criação das formas.

Esse momento filosófico francês fez então uma nova apropriação da criação alemã, uma visão criadora da ciência, uma radicalização política, uma investigação das novas formas de arte e da vida. E, através de tudo isso, tratava-se de uma nova posição do conceito, uma nova disposição do conceito, um deslocamento da relação do conceito ao seu exterior: nova abordagem em relação à existência, ao pensamento, à ação e ao movimento das formas. É essa novidade da relação entre conceito filosófico e exterior desse conceito que constituiu a novidade geral da filosofia francesa no século XX.

A questão das formas, a busca por uma intimidade da filosofia com a criação das formas é muito importante. Evidentemente, ela introduziu a questão da forma da própria filosofia: não podemos deslocar o conceito sem inverter as novas formas filosóficas. Era preciso transformar a língua da filosofia, não apenas criar novos conceitos, daí o surgimento de uma aproximação singular da filosofia à literatura, que é uma das características mais impressionantes da filosofia francesa no século XX. Podemos dizer que essa é uma longa história francesa – lembrando que, no século XVIII, aqueles que chamávamos filósofos eram todos grandes escritores: Voltaire, Rousseau ou Diderot, que são clássicos de nossa literatura e, portanto, ancestrais dessa questão. Existem autores por toda a França que nós não sabemos se eles pertencem à literatura ou à filosofia: Pascal, por exemplo, que é certamente um dos maiores escritores de nossa história literária e, certamente, um dos nossos mais profundos pensadores.

No século XX, Alain, um filósofo de aparência inteiramente clássica, no decorrer dos anos trinta/quarenta, um filósofo não-revolucionário e que não pertence a esse momento de que falo, está muito próximo da literatura; para ele a escrita é essencial, produziu numerosos comentários de romances – seus comentários sobre Balzac são muito interessantes –, bem como da poesia francesa contemporânea, notadamente de Valéry. Então, mesmo entre as figuras clássicas da filosofia francesa do século XX, nós notamos essa ligação muito estreita entre filosofia e literatura. Os surrealistas também desempenharam um papel importante

(Continua...)

"Anthologie sonore de la pensée française"


CD 03:

Faixa 01: "Splendeurs de l ecole d'ispahan", por Alain Corbin
Faixa 02: "Artifice et societe dans l'oeuvre de Hume", por Gilles Deleuze
Faixa 03: "Le dieu de Spinoza", por Gilles Deleuze
Faixa 04: "Le travail de l affect dans l ethique de Spinoza", por Gilles Deleuze
Faixa 05: "Bernard Groethuysen une amitie philisophique", por Jean-Toussaint Desanti
Faixa 06: "Comment je philosophe?", por Jean-Toussaint Desanti
Faixa 07: "A propos de l'histoire de la folie", por Michel Foucault

Baixe o CD 03

CD 04:

Faixa 01: "Raymond roussel ecrivain", por Michel Foucault
Faixa 02: "Le corps: lieu d'utopies", por Michel Foucault
Faixa 03: "L'amour de Petrarque", por Étienne Gilson
Faixa 04: "Sur la philosophie d'Henri Bergson", por Vladimir Jankélévitch
Faixa 05: "La place de Saint Anselme dans la philosophie occidentale", por Alexandre Koyré

Baixe o CD 04

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Panorama da filosofia francesa contemporânea (parte I) / Antologia sonora do pensamento francês pelos filósofos do século XX (CD's 1 e 2)

O texto a seguir é a transcrição da Conferência "Panorama de la philosophie française contemporaine", proferida por Alain Badiou na Biblioteca Nacional (Buenos Aires), em Junho de 2004. Aqui, em tradução nossa, foi dividido em três partes e servirá de apresentação à coleção "Anthologie Sonore de la pensée française par les philosophes du XXème siècle". Esperamos com isso contribuir com a assimilação dos conteúdos dos CD's, além, é claro, de propor uma discussão sobre a filosofia francesa contemporânea em suas duas vertentes (a vida e o conceito), no campo de batalha em torno do sujeito.


Panorama da filosofia francesa contemporânea
Alain Badiou


Eu pretendo apresentar a vocês algumas observações sobre a filosofia francesa, começando por um paradoxo: ela é a mais universal e também, ao mesmo tempo, a mais particular. É o que Hegel chama o universal concreto, a síntese daquilo que é absolutamente universal, que é para todos, e daquilo que, ao mesmo tempo, possui lugar e momento particulares. A filosofia é um bom exemplo: como vocês sabem, a filosofia é absolutamente universal, a filosofia se endereça a todos, sem exceção – mas existem na filosofia fortes particularidades nacionais e culturais. Existe aquilo que eu chamarei os momentos da filosofia, no espaço e no tempo. A filosofia é, então, uma ambição universal da razão e, ao mesmo tempo, ela se manifesta pelos momentos inteiramente singulares. Tomemos dois exemplos, dois momentos filosóficos particularmente intensos e conhecidos. Primeiramente, o momento da filosofia grega clássica, entre Parmênides e Aristóteles, entre os séculos V e III a.C., momento filosófico criador, fundador, excepcional e, finalmente, muito breve. Em seguida nós temos um outro exemplo, o momento do idealismo alemão, entre Kant e Hegel, com Fichte e Schelling, ainda um momento filosófico excepcional, entre o fim do século XVIII e começo do XIX, um momento intenso, criador e, ele também, no tempo, muito curto. Eu pretendo, então, sustentar uma tese histórica e nacional: houve ou há, de acordo com o ponto em que me situo, um momento filosófico francês na segunda metade do século XX, e eu gostaria de tentar apresentar-lhes esse momento filosófico, comparável – guardadas as devidas proporções – aos exemplos que lhes dei anteriormente, ao momento grego clássico e ao momento do idealismo alemão.

Peguemos essa segunda metade do século XX: O ser e o nada, obra fundamental de Sartre, aparece em 1943 e os últimos escritos de Deleuze, O que é a filosofia?, datam do começo dos anos 90. Entre 1943 e o final do século XX se desenvolve o momento filosófico francês; entre Sartre e Deleuze, nós podemos nomear Bachelard, Merleau-Ponty, Lévi-Strauss, Althusser, Foucault, Derrida, Lacan e eu mesmo, talvez vejamos. Minha posição particular é, se houve um momento filosófico francês, dele ser talvez o último representante. É esse conjunto situado entre as obras fundamentais de Sartre e as últimas obras de Deleuze que eu chamo de filosofia francesa contemporânea e da qual irei falar. Ela constitui na minha opinião um momento filosófico novo, criador, singular e, ao mesmo tempo, universal. O problema é identificar esse conjunto: o que se passou na França, em filosofia, entre 1940 e o final do século? O que se passou em torno dessa dezena de nomes próprios que eu citei? O que é que nós chamamos existencialismo, estruturalismo e desconstrução? Existe uma unidade histórica e intelectual desse momento? E que unidade é essa?

Eis as questões que quero formular com vocês esta tarde. Eu o farei de quatro maneiras diferentes. A partir da questão da origem: de onde vem esse momento? Qual é o seu passado? Qual é o seu nascimento? Em seguida, enunciando as principais operações filosóficas próprias a esse momento de que falo. Depois, inserir uma pergunta fundamental, que é o laço de todos esses filósofos com a literatura e, de forma mais geral, o laço entre filosofia e literatura nessa seqüência. E em quarto lugar, eu falarei da discussão constante durante todo esse período entre a filosofia e a psicanálise. Questão da origem, questão das operações, questão do estilo e da literatura, questão da psicanálise, tais serão meus meios para tentar identificar essa filosofia francesa contemporânea.

Vamos então à primeira questão, a origem. Para pensar essa origem, é preciso remontar ao começo do século XX, onde se opera uma divisão fundamental da filosofia francesa: a constituição de duas correntes verdadeiramente diferentes. Dou alguns pontos de referência: em 1911, Bergson proferiu duas célebres conferências em Oxford, publicadas na coletânea que tem por título O pensamento e o movente, e, em 1912, na mesma época, portanto, apareceu o livro de Brunschvicg que tem por título As etapas da filosofia matemática. Essas duas intervenções entram em ação pouco antes da guerra de 1914. Ora, essas duas intervenções indicam a existência de duas orientações extremamente diferentes. No caso de Bergson, nós temos quilo que podemos chamar de uma filosofia da interioridade vital: a tese de uma identidade do ser e da mudança, uma filosofia da vida e do vir-a-ser. Essa orientação continuará durante todo o século, até – e incluindo – Deleuze. No livro de Brunschvicg, descobrimos uma filosofia do conceito apoiada sobre as matemáticas, a possibilidade de um tipo de formalismo filosófico, uma filosofia do pensamento ou do simbolismo, e essa orientação se manteve por todo o século, em particular com Lévi-Strauss, Althusser ou Lacan.

Nós temos, então, no começo do século, aquilo que chamarei de uma figura dividida e dialética da filosofia francesa. De um lado, uma filosofia da vida; de outro, uma filosofia do conceito. E esse problema entre vida e conceito será o problema central da filosofia francesa, do momento filosófico de que falo, a segunda metade do século XX.

Com uma discussão sobre a vida e o conceito, surge finalmente uma discussão sobre a questão do sujeito que organiza todo o período. Por quê? Porque um sujeito humano é, por sua vez, um corpo vivo e um criador de conceitos. O sujeito é a parte comum às duas orientações: ele é interrogado quanto a sua vida, sua vida subjetiva, sua vida animal, sua vida orgânica; e ele também é interrogado quanto ao seu pensamento, quanto a sua capacidade criadora, quanto a sua capacidade de abstração. A relação entre corpo e idéia, entre vida e conceito, vai organizar a formação da filosofia francesa e esse conflito está presente desde o começo do século, com Bergson de um lado e Brunschvicg do outro. Nós podemos, então, dizer que a filosofia francesa vai se constituir pouco a pouco em um tipo de campo de batalha em torno da questão do sujeito. Kant é o primeiro a definir a filosofia como um campo de batalha, onde nós somos os combatentes mais ou menos fatigados. A batalha central da filosofia na segunda metade do século será uma batalha em torno da questão do sujeito. Dou rapidamente alguns pontos de referência: Althusser definiu a história como um processo sem sujeito e o sujeito como uma categoria ideológica; Derrida, em sua interpretação de Heidegger, considera o sujeito como uma categoria da metafísica e Lacan, esse, criou um conceito de sujeito – para não mencionar o lugar central do sujeito em Sartre ou em Merleau-Ponty. Daí, uma primeira maneira de definir o momento filosófico francês será falar de batalha a propósito da noção de sujeito, pois é questão fundamental da relação entre vida e conceito, que, pos sua vez, nada é senão a interrogação fundamental sobre o destino do sujeito.

Observemos, sobre essa questão das origens, que podemos remontá-la muito além e dizer, no final das contas, que ela é uma herança de Descartes, que a filosofia francesa da segunda metade do século é uma imensa discussão sobre Descartes. Afinal, Descartes é o inventor filosófico da categoria de sujeito e o destino da filosofia francesa, sua divisão mesmo, é uma divisão da herança cartesiana. Descartes, por sua vez, é um teórico do corpo físico, do animal-máquina, e um teórico da reflexão pura. Ele se interessa então, num certo sentido, pela física das coisas e pela metafísica do sujeito. Nós encontramos textos sobre Descartes entre todos os grandes filósofos contemporâneos: Lacan mesmo lançou a palavra de ordem de um retorno a Descartes, existe um artigo memorável de Sartre sobre a liberdade em Descartes, há a tenaz hostilidade de Deleuze a Descartes, existe, em definitivo, tanto sobre Descartes quanto existem filósofos franceses na segunda metade do século XX, o que demonstra simplesmente que essa batalha filosófica é também, finalmente, em torno dos tributos e do significado de Descartes. As origens nos dão, então, uma primeira definição desse momento filosófico como batalha conceitual em torno da questão do sujeito.

Meu segundo tempo será o da identificação das operações intelectuais comuns a todos esses filósofos. Eu definirei quatro delas que, eu creio, ilustram bem o modo de fazer da filosofia e que são, de qualquer maneira, suas operações metódicas.

(Continua...)
Tradução: Biblioteca Central em Atalaia


"Anthologie sonore de la pensée française"







"Anthologie sonore de la pensée française par les philosophes du XXème siècle" é uma caixa com 6 CD's, contendo várias comunicações e palestras dos maiores nomes do pensamento francês do século passado. Georges Canguilhem, Gaston Bachelard, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Alexandre Koyré, Louis Althusser, Raymond Aron, Michel de Certeau, Jean-François Lyotard, Maurice Merleau-Ponty, Henri Bergson e Jean-Paul Sartre são alguns dos nomes que figuram nessa coleção que disponibilizamos aqui no "Biblioteca Central em Atalaia".


Comecemos com os dois primeiros discos:





Download: CD 01
Download: CD 02