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domingo, 10 de junho de 2007

Borges após Borges/ Borges por el mismo



Borges após Borges

Léo A. Mittaraquis


Longo tempo, pois, separa-me de um momento em que fora proposto escrever algo sobre Borges e este “agora”, em que arrisco algumas linhas para tecer despretensiosas considerações, as quais, francamente, ainda que busquem despertar o interesse de um ou outro possível leitor, trazem consigo aquela impressão borgeana de deja vu.

Como escrever sobre Borges? A pergunta não parte, diga-se logo, de uma mitificação gadameriana, esta que nos impediria de dizer o que seja sobre uma figura de renome. Bourdieu a ridiculariza com razão. Escrever é possível e até recomendável. Mas me é impossível não lembrar de que o mestre argentino, mais de uma vez, falou-nos dessa mania (monstruosa, por vezes) de repetirmos, tal qual os espelhos, as coisas já existentes no Universo.

Borges soube como ninguém (e, ao mesmo tempo, como outros tantos souberam) os truques que o consagraram escritor. Seduziu-nos muito mais pela negação de possibilidades pessoais (“Não sou observador”) do que pela vanglória (“Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenho lido”). Percebeu-se (e revelou-se), através de alguns de seus personagens (que trazem sempre algo dele... E de todos nós), preconceituoso e desmemoriado. Ou o habitante de uma Buenos Aires querida, comum e misteriosa (“Buenos Aires é a outra rua, a que não pisei nunca, é o secreto centro dos quarteirões, os pátios últimos...”).

Borges afirma-se nos labirintos da literatura não como uma proposta de renovação, de originalidade (a Borges esse termo soaria ofensivo, como aquele que a pretende, um imbecil). Em “O Outro”, quando, às margens do rio Charles, encontra-se consigo mesmo, o outro não é diferente (“Não mudamos nada, pensei. Sempre as referências livrescas”). No conto, nem mesmo o fascínio e o temor diante do inusitado impedem o requintado exercício da hipocrisia (“... Me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo”).

Penso (e é apenas meu modo – mais um modo – de ver as coisas) que Borges esteve (ou sentiu como se estivesse) sempre em frente a um espelho que o duplicava. Ciente disso, sabendo que era aquele outro, seu duplo – no reflexo teria percebido a máscara – preferiu dizer o já dito e registrado em páginas da literatura universal ou, o que é sempre mais interessante, nas folhas improváveis de dezenas de códices citados pelo argentino ao longo de seus muitos textos.

Borges, em seus contos, voltou-se para o leitor. Com ele dialogou livremente, buscando a simples felicidade de saber que alguém (ou alguns) o escutava. E não há exageros em se dizer isso. Jorge compreendia os diálogos como um gênero literário (“Uma forma indireta de escrever”). O diálogo, sim; não o debate. Via-o como inútil (“Estar de um lado ou de outro é um erro”).

Talvez percebesse que a polêmica é um exercício de repetições. Reproduzir posições e localiza-las em sentidos contrários. O campo de opiniões dadas seja a literatura (“Essa biblioteca infinita”). Visões tão pessoais quanto comuns. Nos contos de Borges, o fantástico se funde com o previsível. Incluindo a técnica para escrevê-los (“No caso de um conto, por exemplo, bem, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas em seguida tenho que descobrir, mediante os meus muitos limitados meios, o que acontece entre o princípio e o fim”).Borges disse de si mesmo ser um escritor de poucas idéias e de ser repetitivo (“Facilmente monótono”). Mas acreditava que, ainda que tratasse, praticamente, dos mesmos temas (tigres, labirintos, espelhos, armas brancas...), estes não foram escolhidos por ele, mas, sim, o escolheram. Grato por isso, permaneceu fiel a eles e, para nossa alegria e nosso assombro, dedicou-se a refiná-los.

Ilustração: "Labirinto de Borges", Millôr Fernandes.

Borges por el mismo: un libro sonoro